Crônicas da Cidade Perdida – Capítulo 38: A Jornada pelas Terras Devastadas

(aventura narrada em 18/12/2011)

No capítulo anterior, após fugirem da cilada montada pelo mago Slithen em Red Dust com a ajuda de Odin, chegaram ao Forte Vermelho, onde passaram a noite, para iniciar a travessia das Terras Devastadas no dia seguinte.

Durante a guerra, o reino de Naldínia foi dominado por um exército de dragões. Um pequeno grupo de resistência nasceu nesta época e mesmo que os dragões tenham abandonado a cidade misteriosamente, assinalando o fim do conflito, os membros daquele grupo desconfiam até hoje dos répteis e de seus antigos aliados. Opioh Sativoh, um aspirante a bardo, foi um deles e tinha sérias suspeitas do atual Regente Yeth, que auxiliara na reconstrução de Naldínia mas durante a guerra, auxiliara os dragões.

A algumas semanas ele iniciara uma perigosa jornada na direção do Mar Interior, seguindo os barcos voadores do regente, e chegara no Forte Vermelho, na fronteira das Terras Devastadas. Enquanto bebericava na taverna ele se perguntava como iria atravessar aquela região, pois a jornada era perigosa. Como se os deuses estivessem ouvindo, um dos guardas do forte veio até ele, com a notícia de que um estranho grupo de comerciantes iria atravessar as Terras Devastadas, em direção a cidade de Bast. Ópioh via uma oportunidade nisto, e solicitou que uma mensagem fosse entregue a eles.

Azonc, que dormira com Odin, acordou e viu que seu pequeno amigo não estava lá, deixando somente um papel com símbolos estranhos que o bárbaro não sabia para que serviam. Ele se levantou, e bateu no quarto onde Tatoom e Kalinka dormiam.

- Ooooh! Acordaram???
- O que!? Seu bom humor de manhã, me irrita… – resmungou a mal humorada elfa, após abrir a porta – Espera… cadê o Odin????
- Não saber, ele deixar isto. – disse ele, entregando o papel para a elfa.

Kalinka viu que era uma carta e começou a ler, queimando de raiva.

“Caros amigos, Azonc, Kalinka e Tatoom.

Sei que minha presença em seu grupo é extremamente requisitada e que sou o membro mais valoroso de sua comitiva contudo, melhores negócios me esperam próximo a capital do reino, me obrigando a abandoná-los. Mas pensando que vocês podem precisar de ajuda, deixei um presente debaixo da cama para que alertem todos os guardas da cidade se precisarem.

Cordialmente,

Odin

PS: Caso perguntem sobre algumas coisas que andaram sumindo no forte, eu recomendo que saiam daí o mais rápido possível, mas já adianto que não fiz nada, foi só um mal entendido. Além disso, tive de fazer um pequeno empréstimo de você, Azonc.”

Enquanto a elfa dizia todos os palavrões e xingamentos que lhe vinham a cabeça, o bárbaro voltou para seu quarto e olhando debaixo da cama, encontrou um pedaço de pano, onde o halfling embrulhou a espada que recebera do velho na estrada, junto com sua fiel frigideira além disso, notou que 5 moedas haviam sumido de sua bolsa.

- Bem feito! – disse a elfa quando Azonc voltou – Isso é para você aprender a não confiar nele!
- Você é muito desconfiada. Eu ter certeza que na próxima vez que encontrar ele, ele pagar.

Um dos guardas do forte estava passando por ali e escutou a discussão. Seu nome era Clynth e ele fora incumbido de entregar uma mensagem para aquele estranho grupo, pois apesar de dizerem ser comerciantes, queriam fazer negócios na cidade fantasma de Gaslar.

- Eu já falei quinhentas vezes! Esse Odin, só mete a gente em roubada! – disse Kalinka.
- Amiga Kalinka, você parou de ir no seu psicólogo de controle da raiva. O amigo Odin salvou a gente dos guardas, ajudou a gente e pediu só umas moedinhas emprestadas! – respondeu o bárbaro Azonc.

Neste momento, eles notaram o guarda parado na porta de seu quarto, e antes que a elfa conseguisse abrir a boca, o bárbaro sorridente disse:

- Oi amigo guarda, o que você desejar?
- Hã…
- Mim ser Azonc, prazer.
- Prazer, Cyntia, quer dizer, Clynth.
- Eu trouxe uma mensagem para vocês. Um viajante por aqui se dirige a cidade fantasma de Gaslar, onde estão os barcos voadores do Regente Yeth, e deseja lhes falar.
- E onde está o moço? – perguntou Kalinka.
- Na taverna do forte.

Enquanto Kalinka arrumava rapidamente sua bagagem, antes que alguém descobrisse o que Odin havia feito sumir, Clynth perguntou.

- Eu gostaria de fazer uma pergunta a vocês. A respeitou dessas coisas que sumiram…
- O que sumiu!? Onde!? – responderam todos, com uma certa preocupação.
- Eu ouvi a conversa de vocês, de seu amigo que saiu no meio da noite.
- Ele não é meu amigo, ele é amigo da onça! – disse a elfa – Vamos fazer o seguinte Clynth, você é feliz sendo guarda aqui do forte?
- Eu sou super feliz! – disse o guarda com animação.
- Que pena, eu ia chamar você para passear com a gente…

Na verdade Clynth estava se fazendo de difícil, pois ficou tentado com a oferta, mas como um bom soldado, pensava um pouco no assunto antes de tomar uma decisão. Contudo, ele não tinha um bom relacionamento com os outros guardas do forte, pois eles o achavam muito chato, e ficavam fazendo piada com seu nome o tempo todo, chamando-o de Cyntia (isso era tão constante, que as vezes ele confundia o próprio nome ao se apresentar).

Enquanto o grupo se dirigia para a taverna, guiados pela guarda Clynth, Azonc foi até o estábulo e viu que a carroça de Odin estava lá, mas seu burro, o Poderoso, havia sumido. Procurando nas quinquilharias ele encontrou um pedaço de pano velho e ficou tentando polir a espada.

A taverna do forte era pequena, e gerenciada por um gordo soldado aposentado, que limpava o balcão com um pano sujo. Em meio a clientela composta somente de guardas, o grupo notou um homem vestido de maneira diferente com um alaúde no colo. Clynth disse ser o aventureiro que mencionara.

O bardo notou uma elfa com longos cabelos rosas, de estatura pequena e um vestido sumário vindo em sua direção. Olhando para ela, com uma centelha de reconhecimento, disse entusiasmado:

- Você me lembra uma artista elfa de muito sucesso. A Cindhy Lawpper, uma barda incrível! Você deve ser parente dela! Incrível!
- Ai… Eu não conheço. – respondeu a elfa lisonjeada.
- Você parece um pouco também com a Lady Gárgula, uma elfa negra progressista!
- É que eu fui embora da casa dos meus pais muito cedo e convivo há muito tempo com humanos, então não conheço muitos elfos.
- Incrível, mas eu jurava que todos vocês elfos se conheciam!
- Prazer, eu sou Kalinka.
- Prazer, Ópioh Sativoh.
- Clynth, você pode tomar uma conosco ou é contra as regras?
- Isso, Cyntia, junte-se a nós para beber uma cerveja!
- Meu nome não é Cyntia, é Clynth!
- Isso, Clynth, junte-se a nós!
- Eu não posso por causa das regras, mas se você pagar uma caneca pra mim eu posso ficar um pouco.
- Bom, Ópioh esse é Tatoom e aquele grande guerreiro (Azonc acabara de entrar na taverna) vindo em nossa direção é o Azonc.
- Ópioh, seu nome me é familiar. Tem um chá de alcachofra que fazem lá de onde eu venho, cujo nome lembra muito o seu. – disse Tatoom.
- É que minha família era de fazendeiros e acabaram colocando esse nome em mim, por que todo mundo tomava esse chá. Eu não aguentava mais aquele repressão toda e acabei saindo da vila.
- Bom, não sei se o Cyntia, quer dizer o Clynth se antecipou, mas nós estamos indo na mesma direção e como esse lugar é um pouco perigoso, podíamos nos unir para esta viagem. Mas, uma dúvida, por que você está indo atrás dos barcos?
- Eu fui parte da resistência na guerra, mas hoje eu não concordo muito com quem está no comando e não confio muito naquele profeta. Sabe como é, uma vez da resistência você sempre faz parte! Além disso, pelo que eu ouvi, vocês estão querendo ir pelas Terras Devastadas, que é um lugar perigoso, então minha companhia poderia ser de muita ajuda.
- Vocês nunca ouviram falar dos vermes gigantes que vivem lá? Não é um lugar por onde se deve viajar! – intercedeu Clynth
- Por isso mais um guerreiro seria interessante! – disse Tatoom.
- O que você dizer com isso? – perguntou o soldado com um pouco de interesse, pois sabia que Tatoom era um sacerdote do deus da Alegria, famosos por suas grandiosas festas, além de estar para receber sua licença.
- Olha… eu posso ir com vocês, por 30% de todos os ganhos.
- O que ser essa moeda por cento? – perguntou Azonc.
- Ele quer uma parte do que a gente ganhar, Azonc! Pra mim está tudo certo! – respondeu a elfa, que sabia que ele ganharia 30% de nada na maioria das vezes.

Enquanto conversavam, a porta da taverna foi bruscamente aberta, e um militar com uma armadura completa, que parecia ser o General disse:

“Muito bem, eu quero saber que roubou uma arca de meu quarto esta noite!”

Como estavam perto da porta dos fundos, os aventureiros tentaram sair de fininho com a ajuda de Clynth, que exigira 50% dos ganhos (mas que continuavam sendo nada) para isso, enquanto Ópioh acertava a conta. De repente notaram que Azonc não estava com eles e estava olhando intrigado para o General.

- Você trancar a porta de seu quarto?
- Quem é você? – perguntou o General Crunch espantado.
- Mim ser Azonc, prazer.
- Você é um daqueles estrangeiros não é! Guardas prendam ele!
- Espera, espera… – disse Kalinka – de fato nós somos estrangeiros, mas estamos aqui a convite.
- Então se meus guardas revistarem seus pertences não vão encontrar nada?
- Não.
- Isso, poder revistar até carroça. Só ter quinquilharia lá, nós ser comércio!

Um dos guardas que tinha ido ao estábulo, voltou com uma arca, com o símbolo real, o que fez o General olhar furioso, mas Azonc, em sua inocência, disse:

- Você ser do exército de Naldínia, nós também, nós servir no forte da Floresta das Sombras!
- Ei, eu fui da resistência na guerra! – disse Ópioh.

Depois de diversas desculpas do grupo, ele mandou o guarda Clynth levar todos a masmorra, para serem interrogados mais tarde. Como Clynth estava interessado na oferta dos aventureiros, ele os levou até um velho depósito onde havia uma passagem que levava para fora da muralha. Uma pesada porta de metal trancada estava entre eles e sua liberdade, fazendo com que Ópioh usasse suas habilidades ladinas.

Como o General Crunch não sabia do acordo que ele fizera, Clynth foi dar entrada em suas férias e combinou que eles se encontrassem em uma pequena fazenda de criação de cavalos que ficava a uma hora de caminhada do forte.

Vinte minutos depois que chegaram a fazenda, Clynth se aproximava com seu cavalo e com a carroça de Odin. Eles foram atendidos por Zé Carvalho Bronson, um homem de 50 anos, cabelos brancos e um espesso bigode. Ele ficou muito espantado quando eles disseram ser amigos de Clynth, pois ele tinha a fama de não ter nenhum.

Zé Carvalho não parecia disposto a aceitar a oferta dos aventureiros de fazer o pagamento depois, pois a viagem que iriam empreender era muito arriscada. Clynth que não aguentava mais aquilo, bateu no negociante e o deixou inconsciente. Rapidamente, pegaram dois cavalos e seguiram a viagem pelo interior das Terras Devastadas em direção a Bast; uma jornada de quatro dias.

A estrada parecia ser muito antiga e cheia de buracos causados pela erosão do solo, que parecia ser composto de terra e cinzas. Árvores secas com aspecto estranho e buracos que se pareciam com tocas cavadas no solo, completavam a tétrica paisagem.

A viagem de 4 dias foi dura e cheia de perigos, pois aquele lugar desolado era povoado por criaturas de pesadelo e por incautos grupos de ladrões que esperavam conseguir algum lucro, assaltando os viajantes que iam e vinham de Bast.

Na noite do terceiro dia de viagem, enquanto Tatoom vigiava o acampamento, foi surpreendido por um lobisomem que veio sorrateiramente pelas suas gostas e feriu seu braço com uma de suas garras. Enfurecido pelo ataque, o Anão desferiu um golpe certeiro que deixou o monstro muito ferido e com a ajuda de seus companheiros, o monstro foi derrotado, sendo seu corpo consumido pelas chamas das magias de Kalinka. Sem saber se o veneno do  lobisomem poderia estar correndo pelas veias do anão, o grupo que já estava acordada, seguiu viagem.

Sujos, cansados e muito feridos, eles finalmente chegaram a cidade de Bast, na tarde do quarto dia. Ela era cercada por um alto muro feito de uma pedra da mesma cor do solo, com um pesado portão prateado. Azonc gritou: “Oh de casa, alguém abre a porta!”

Em resposta, oito guardas armados com bestas saíram da cidade.

- Nós lutar caminho até aqui e estar feridos! Nós ser comércio. – disse Azonc
- Esperem um minuto. – disse o porta-voz deles.

Um homem que parecia ser um mago passou pelos portões. Ele verificou todos os ferimentos e quando foi checar o anão, parou no ferimento causado pelo lobisomem.

“Sinto muito, seu amigo não pode entra na cidade. Ele foi ferido por um lobisomem e representa um risco a segurança da população. Existem alguns curandeiros que tem uma fórmula que pode ajudá-lo, mas ele deverá ficar fora das muralhas até ser curado.”

A notícia não agradou os aventureiros, mas não tinham escolha, por isso Azonc ficou com o anão, enquanto os outros iriam em busca de uma cura.

A cidade de Bast se assemelhava a uma grande mina a céu aberto, com casas empilhadas e pessoas sujas pelo trabalho nas minas andando por todos os lados. A cidade tinha uma grande guarnição de soldados, que serviam para combater as criaturas que viviam fora das muralhas, além do ataque dos vermes que viviam no subsolo e dos ladrões que tentavam roubar a produção das minas.

As lendas contavam que uma grande pedra de fogo caiu do céu e “criou” aquele lugar e as gemas estelares seriam parte dela. Os monstros que apareceram por ali foram gerados pelas pedras, que transformaram as criaturas da região em seres horrendos e mortais, causando cicatrizes e deformações horríveis nos trabalhadores também. A maior parte dos mineiros só trabalhava ali por causa dos altos lucros que eram enviados a suas famílias ou para fugirem de um passado de crimes.

Enquanto buscavam por uma cura, uma movimentada tenda chamou a atenção de Kalinka. Dentro dela estava Aline, uma clériga da deusa da natureza Naraya, que os aventureiros ajudaram a muitos anos. Ela estava ajudando os mineiros, tentando desenvolver uma cura para os ferimentos causados pelas gemas e ficou feliz em vê-los. Quando Kalinka contou o que aconteceu a Tatoom, ela foi até onde ele estava para ajudá-lo, pois ela conhecia uma fórmula que poderia ajudar a combater a maldição.

Os ingredientes não eram triviais, como sangue de urso-coruja e ossos de aranhas gigantes, e a negociação por eles com os comerciantes da cidade foi lenta e difícil. Aline então preparou a poção, que ao ser bebida pelo anão, o fez vomitar imediatamente. Algumas horas se passaram e quando a febre e o enjoo cederam, Aline confirmou que o anão estava curado (se a fórmula falhasse, ele teria morrido).

Na busca pelos ingredientes, travaram contato com um velho comerciante chamado Quaker. Ele contou que na galeria mais funda das minas, ficava o veio principal das gemas estelares. Segundo o que ouvira, existia uma câmera com uma gema gigante, que se assemelhava a um ovo, onde uma criatura feita de luz vivia. A algum tempo, o conselho procurava por um grupo interessado em ir até lá, e os aventureiros viram uma oportunidade para conseguir uma gema e descobrir o segredos que se escondiam nas profundezas de Bast.

Como estavam muito feridos e cansados, pagaram por hospedagem no Minerador Cansado, uma modesta hospedaria da cidade, esperando que na manhã seguinte, conseguissem negociar com o conselho da cidade a passagem para as minas.

Foram recebidos pelo administrador da cidade, uma mago chamado Nunseyum, que ficou interessado no pedido dos aventureiros, mesmo que estivesse preocupado com as intenções deles, pois deixaram claro que queriam (e tentariam pegar se entrassem nas minas) algumas gemas estelares. Contudo, esta era uma oportunidade que ele achou melhor não desperdiçar, já que todos na cidade tinham medo de entrar na caverna onde ficava o veio principal, pois diziam que a criatura que vivia lá, falava na mente das pessoas em uma língua desconhecida.

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