Farenheit 451 - Graphic Novel

Farenheit 451, A Graphic Novel Oficial: a Vitória do Capitão Beatty?

Farenheit 451 - Graphic NovelNa trama de Farenheit 451, os livros foram considerados nocivos ao bem estar público pelo mais tirânico dos regimes: a opinião das massas. Pelas mãos dela, eles foram cortados, resumidos, mastigados e regurgitados, sob a forma de revistas populares e histórias em quadrinhos, por serem mais fáceis de entender, necessitando de pouca ou nenhuma reflexão e trazendo prazer imediato. Logo, é estranho olhar para a capa desta revista e ler: “A graphic novel autorizada por Ray Bradbury”. Isto poderia ser um sinal de que o futuro distópico imaginado pelo autor está começando (ou de que ele já está acontecendo), mas julgar o livro pela capa seria uma decisão precipitada.

A adaptação ficou nas mãos de Tim Hamilton, cartunista e ilustrador americano, e logo nas primeiras páginas temos uma introdução do próprio Bradbury endossando-a, e de certa forma, percebe-se que ela foi escrita por alguém mais velho e consciente do processo de criação de sua obra, além das implicações dela sobre a sociedade, contrastando com o autor mais rebelde do pos-fácio do livro.

Comparando a trama dos quadrinhos com o livro, nota-se que em ambas as versões elas seguem estruturas muito próximas. Algumas cenas, como o momento em que Guy Montag atira com seu lança chamas no Capitão Beatty, a queima da mulher que se recusava a deixar seus livros e a destruição da cidade, tornam-se mais vívidas e aterradoras.

Além disso, a inclusão dos nomes de alguns dos livros que estão sendo queimados, traz uma certa identificação ao leitor, situando o drama vivido pelo bombeiro nos dias atuais, pois algumas destas obras são consideradas de leitura difícil, especialmente em um país como o Brasil, onde somente 26% da população adulta é capaz de ler e interpretar textos, segundo Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao comentar as atuais mudanças no ensino médio propostas pelo MEC*.

A arte da capa é fabulosa e muito simbólica, pois mostra o horror da distopia, com as chamas que lembram uma fênix queimando uma pilha de livros, simbolizando a censura mantida pelos bombeiros e a esperança de Montag e dos “homens-livro”, que os decoram antes de queimarem.

A graphic novel é excelente, com uma bela e viva arte, e a trama quadrinizada, incomoda e choca ao ser lida. Contudo, ela não exclui a leitura do livro, pois por mais próxima que esteja, ainda é uma adaptação em 152 páginas, que dificilmente poderia conter todas as intenções, desejos e impressões do autor.

Para finalizar, cumprindo o pedido expresso na introdução da revista por este grande nome da ficção científica, gostaria de indicar o livro que eu memorizaria e protegeria dos censores ou dos “bombeiros”, e o motivo por trás desta decisão: Farenheit 451, pois ele mostra o quão perigosamente próximos estamos, podemos estar ou podemos chegar, da distopia imaginada por Ray Bradbury, e o quanto podemos perder no processo, se priorizarmos apenas o prazer imediato e diluído.

* o artigo foi publicado no dia 20 de novembro de 2012, no Jornal da Ciência da SBPC, sob o título “Sociedades científicas discutem mudanças no Ensino Médio propostas pelo MEC com o presidente do Conselho Nacional de Educação”, e pode ser lido gratuitamente, no link http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=84573
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