Crônicas da Cidade Perdida – Capítulo 29 – Legião

(aventura narrada em 16/12/2009)

No capítulo anterior os aventureiros foram atacados por uma estranha criatura de sombras, após saírem de um templo abandonado próximo a vila de Kar-Rot. A criatura os pegou e sugou sua força vital, fazendo com eles perdessem a consciência e ficassem sozinhos em meio a floresta escura, longe de qualquer ajuda.

Azonc, Tatoom e Kalinka começaram a ouvir vozes a sua volta. Elas ainda eram indistintas e tudo estava escuro, mas parecia que falavam deles. Aos poucos seus sentidos foram voltando ao normal e viram que estavam no salão de entrada da Hospedaria dos 100 Passos. Quando se levantaram, viram que praticamente toda a vila estava ali e muitos dos habitantes estavam feridos.

Willow veio até eles e lhes disse que um dia depois que os aventureiros partiram para o templo abandonado, uma grande escuridão desceu da mata em direção a vila. Muitos habitantes foram mortos várias crianças levadas por ela. Logo depois, gárgulas vieram até a vila e começaram a atacar. Durante a noite a criatura de sombras voltou e levou mais crianças. Os habitantes usaram os explosivos de Tatoom para selar a caverna onde a criatura se escondia durante o dia, mas do lado de fora da caverna ouvia o som de muitas mãos cavando; em breve ela sairia.

Como eles não tinham guerreiros, reuniram toda a população na hospedaria (por ser de pedra, era a construção mais resistente) e fecharam portas e janelas. Mesmo assim, as gárgulas destruíram o telhado e eles tiveram de selar a escada para o segundo pavimento. Só tinham comida para mais três dias.

Willow disse que um dos velhos da vila queria falar com eles. Ele se chamava Igion. Era um dos poucos que conhecia a língua antiga, dos fundadores de Kar-Rot. Ninguém mais a usava, era transmitida a alguns só para manter a tradição.

Igion abriu o diário, tocou em um dos símbolos e começou a se concentrar. Uma projeção se formou acima dele e um novo livro, feito de uma luz avermelhada se formou no ar. Segundo o velho, cada um daqueles símbolos era um livro, com relatos datando de séculos atrás. Foi a forma que os antigos encontraram para registrar muito conhecimento em pouco espaço, preservando sua cultura.

Lendo o diário, ele descobriu a verdade sobre a fundação da vila, por isso chamou-os primeiro, para não assustar ainda mais as pessoas.

Kar-Rot foi fundada por clérigos de Bartuc, um demônio poderoso. Eles descobriram que naquela região, vivia uma criatura muito antiga, viva desde os Anos Escuros. Esta criatura não podia ser capturada, pois era formada pela própria essência das sombras, possuindo centenas de braços formados pelas almas dos inocentes. Ela não obedecia a nenhum mestre, tendo poder inclusive para derrotar o próprio Bartuc.

O demônio mandou seus clérigos construírem um templo no local, onde um ritual foi executado, ao custo das vidas de centenas de clérigos. O ritual prendeu a criatura nas paredes do templo; ele não podia ser morto mas não sairia dali.

Três selos foram necessários para finalizar o ritual: o coração-gema dos guerreiros de pedra, o Gigante Sanguinário e a Besta das Profundezas. Enquanto os três não desaparecessem, a criatura ficaria presa.

Os clérigos então criaram uma vila onde poderiam viver. Como o mal parecia alimentar o monstro, Bartuc proibiu qualquer tipo de culto para ele, mandando apenas que seus clérigos continuassem fiéis. A cada geração, alguns dos habitantes da vila eram escolhidos para viverem no templo e continuar a Vigília. Contudo, com o tempo mais e mais pessoas se esqueciam de seu antigo senhor.

Igion lhes mostrou as anotações do último clérigo, datada de 6 séculos atrás:

“Eu sou o último. Ninguém mais na vila se lembra de nosso Senhor. Eu poderia seqüestrar uma criança e começar a treiná-la para continuar a Vigília, como foi feito comigo, mas não posso condenar mais alguém a este castigo.

Não agüento mais viver sozinho neste lugar de glórias perdidas. Além do mais, ninguém mais se lembra da criatura. Ontem terminei de criar os gárgulas que irão alimentar o Gigante depois que eu partir, eles também manterão qualquer invasor afastado, de modo que os Selos estão seguros.

Assim que eu sair desta sala para o exterior do templo, removerei o amuleto que impede que os gárgulas me ataquem; eles irão dar cabo de minha vida e irei de encontro ao Senhor Bartuc, mesmo que para ser punido.”

Azonc indignado, disse neste momento: “Por que ninguém avisar que nós não poder matar monstros!?”

Eles se sentiram culpados pois em sua ganância, trouxeram o mal a uma vila pacata, que havia esquecido suas origens profanas a muito tempo e construído um lugar onde a bondade reinava.

Igion disse que a arma que encontraram foi construída pelos primeiros clérigos, caso a criatura fosse libertada. Com o coração dos guerreiros de pedra ela poderia, em tese, deter a criatura, apesar dos papéis não dizerem como. Analisando a arma, eles descobriram um compartimento onde uma pedra de mana podia ser colocada.

Contudo, antes de enfrentarem a criatura, eles precisavam se livrar dos gárgulas. Eles estavam voando lá fora, impedindo que as pessoas saíssem. Quando Kalinka perguntou se havia algum veneno, uma clériga apareceu. Ela havia chegado na vila logo depois que eles se dirigiram para o templo e se chamava Aline. Era nativa da vila de Naraya e já ouviu falar dos aventureiros, pois foi graças a eles que a fé na deusa da natureza foi restaurada lá. Estava viajando pelo mundo, propagando o culto da Deusa.

Ela conhecia muito sobre venenos e trazia algum consigo, principalmente para criar remédios para os necessitados. Azonc teve a idéia de jogar veneno em um corpo e deixar os gárgulas comerem, para ver o que acontecia. Ele e Tatoom saíram da hospedaria, com a arma dos antigos clérigos preparada, mas parecia tudo tranqüilo lá fora.

Entraram em uma casa destelhada para se esconderem, foi quando do alto, um gárgula veio. Azonc atirou com a besta e um clarão de luz mágica foi disparado. Os dois conseguiram fechar os olhos, mas o gárgula não teve a mesma sorte e acabou caindo. Azonc pegou uma pedra e matou a criatura, esmagando sua cabeça. Quando ouviram o som de mais asas se aproximando, eles jogaram um pouco de veneno em um corpo e o deixaram no meio da rua, entrando na hospedaria.

Quando menos esperavam, uma gárgula pegou o corpo e o levou para o alto, para devorá-lo. Ele caiu minutos depois, sem vida. O veneno parecia funcionar, mas havia um problema: eles só tinham o suficiente para mais três tentativas e segundo as pessoas, havia oito gárgulas.

Pediram ajuda ao ferreiro e ao artesão da vila que disseram poder construir uma pequena catapulta fixa no meio da rua, de modo que pudessem derrubar os gárgulas e derrotá-los mais facilmente.

Analisando a besta, Azonc viu que ela parecia ser frágil, pois a pedra de mana virou pó e a arma começava a apresentar pequenas rachaduras. Era melhor guardá-la para a criatura de sombras, pois não conheciam outra forma de derrotá-la.

Os três então envenenaram mais três corpos, matando mais gárgulas. Restavam apenas quatro. Depois que as catapultas foram montadas, eles atraíram os monstros alados e conseguiram dar cabo deles, derrubando-os. Azonc então usou a cabeça de um deles, que morreu na queda, para matar os restantes.

A melhor chance que eles tinham para derrotar o monstro de sombras era encurralá-lo na câmara dos cristais da caverna onde ele estava aprisionado. Aquele lugar sempre estivera ali, e agora parecia ter algum propósito: os cristais podiam amplificar o disparo de luz da arma, espalhando-a por toda a caverna.

Eles deixaram Aline cuidando dos feridos e foram com alguns aldeões até a caverna. Os sobreviventes só pediram que eles salvassem as crianças.

Quando chegaram na caverna, perceberam que a criatura havia parado de cavar. Os homens que foram com eles removeram uma parte das pedras, o suficiente apenas para passarem. Assim que eles entraram, selaram a caverna de novo, prometendo esperar do lado de fora para que pudessem sair.

Conforme andavam, escutavam algo rastejando nas sombras e chegando cada vez mais perto. Apertaram o passo e chegaram a câmara dos cristais, com o qual ficaram deslumbrando. Era um grande salão, coberto por cristais totalmente transparentes, que refratavam qualquer luz que entrasse em cores diversas.

Em um dos cantos, havia uma criança estava sentada e encolhida. Quando Kalinka se aproximou, ela levantou a cabeça e a elfa pode ver os olhos vermelhos e demoníacos. Mais crianças apareceram e disseram a mesma frase, em uníssono: “Nosso nome é Legião, por que somos muitos”.

Aquelas vozes fizeram a caverna tremer e os aventureiros terem a certeza de que as crianças não podiam mais ser salvas, já eram parte da criatura. Como estava escrito no diário: “as centenas de braços formados pelas almas dos inocentes.”

Azonc disparou a arma com uma das gemas, em direção ao teto. O clarão se propagou por todos os cristais da câmara, inundando a caverna, e fez a criatura gritar com suas centenas de bocas. Quando puderam abrir os olhos, viram que as crianças que formavam a criatura se transformavam em pó, ao som de um lamento doloroso.

Ainda havia crianças pela caverna, possuídas pelo monstro, o que obrigou Azonc a disparar uma segunda vez. Este segundo disparo fez a arma se partir em pedaços, mas ao abrir os olhos, parecia que a criatura tinha morrido, pois só restava o pó dos corpos dos inocentes. Os aventureiros vasculharam a caverna em busca de crianças que estivessem possuídas ou pudessem ser salvas mas, para o bem ou para o mal, não havia nenhuma.

Pediram para seus amigos da vila de Kar-Rot abrir a caverna e voltaram para a hospedaria. Com pesar, informaram que nenhuma criança pode ser salva. A festa que Tatoom queria fazer em honra a seu deus, se transformou em uma solene homenagem aos mortos, ao som do choro e das lágrimas daqueles que perderam seus entes queridos.

Depois deste dia, a caverna foi mantida selada pelos aldeões, que mantinham sempre dois guardas lá, para garantir que a criatura não voltasse e as pessoas não se esquecessem do mal que passou por ali. Aline disse que mais clérigos de sua ordem estavam vindo e poderiam ajudar a curar as feridas na terra, destruindo o templo profano, e curar as almas dos feridos.

Meses depois, em uma noite escura, no interior da caverna, uma criança chorava. Ela levantou a cabeça olhando para o vazio. Se alguém estivesse lá, teria visto os olhos vermelhos com um ódio maligno e a paciência de uma criatura mais antiga que qualquer uma neste mundo. Ele poderia esperar por eras, pois sabia que um dia seria livre novamente, no dia em que as sombras inundassem este mundo de novo, e centenas de gerações de seus captores tivessem se extinguido.
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